Mynderland - Coisas de uma Mãe Nerd e Solteira
Ser nerd e mãe é possível, ser nerd solteira não é redundância e ser mãe solteira não é o fim do mundo =)
Ser nerd e mãe é possível, ser nerd solteira não é redundância e ser mãe solteira não é o fim do mundo =)
É, estou chorando e gritando mesmo; só que, dessa vez, é de felicidade. Acabei de receber uma ligação e, talvez, o meu filho receba alta amanhã. É, amanhã! Isso foi surpreendentemente bom de ouvir! Ontem mesmo estavam falando que eu teria que esperar até semana que vem para darem uma previsão para a alta e daí, de repente, recebo essa ligação dizendo que, se ele continuar bem, vão dar alta pra ele amanhã! AMANHÃ!
É, eu sei, estou parecendo uma louca correndo de um lado para o outro, gritando e falando isso pro mundo inteiro ouvir e parecendo um gravador quebrado repetindo a mesma coisa um zilhão de vezes, mas não dá pra segurar! Um mês e meio de UTI, vendo o meu filho só nos horários de visita, e, enfim, vou poder ser mãe em tempo integral! *******, tô MUITO feliz!
Nossa, eu tô retardada de tão feliz! Tô tremendo aqui e nem sei o que fazer, só fico chorando aqui e falando pra todo mundo que o meu filho vai chegar! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!
Melhor parar de tentar escrever alguma coisa, porque eu só vou dizer a mesma coisa: eu tô feliz e o meu filho volta pra casa amanhã!!!

Enquanto isso, o meu filho deve estar dormindo tranquilamente na UTI, sem saber que a mãe dele tá fazendo o maior escândalo de felicidade ♥
O nascimento do meu filho estava previsto para hoje (só um comentário nerd: ele nasceria do dia da toalha).
É um momento péssimo para isso, mas estou escutando uma daquelas músicas que eu não deveria ouvir porque sei que vai me levar àquele momento em que tudo começou: há um ano.
Eu vou ficar acordada outra madrugada, olhando para o céu e pensando como ele pode ser o mesmo se as coisas estão tão diferentes. E isso não vai chegar em lugar nenhum.
Sabe o que é pior? É que as únicas coisas boas que eu lembro não passam de flashes soltos, e as coisas ruins parecem um filme interminável… E, ainda assim, eu fico com esse sentimento que eu queria e deveria jogar no lixo; ele só me deixa burra.
Ainda não aprendi a escapar disso: a primeira vez em que nos falamos, o dia em que nos vimos pessoalmente pela primeira vez, as duas horas em que fiquei procurando coisas de Star Wars pra dar de presente de aniversário, a primeira vez em que pisei na sua casa pra jogar video-game, o pedido de namoro, quando passamos a morar juntos, os planos pro futuro e… Então, desabam os problemas, até chegar no dia da ponte.
Descobri muitas coisas desde então: é, você tinha razão, eu não deveria ter confiado tanto nos outros; é, no final, a minha intuição não falhou com você, eu só deveria tê-la seguido ao invés de tentar ir contra; e nada disso importa, a não ser pra mim.
Ontem, falaram que, se você viesse atrás de mim, era capaz de eu aceitá-lo de volta. Não, isso não aconteceria. A pessoa que viria atrás de mim e que eu aceitaria de volta é aquela que eu conheci, e ela não existe mais.
A pessoa que fazia bolo e assistia a filmes de terror comigo, que quando dava aquele sorriso (igual ao que o meu filho dá agora) desmontava todo o disfarce de cara mal, com quem eu travava uma guerra de cócegas até decidirmos dar uma trégua para jogar video-game, que dizia “eu te amo” antes de dormir abraçado comigo… Essa pessoa, algum dia, em algum momento, existiu de verdade?
Fico me perguntando quanto de mim daqueles dias ainda existe também; morreram tantos sonhos, esperanças, planos e, ainda assim, essa coisa que me sufoca e me faz olhar para o céu procurando o que eu perdi continua.
Eu queria que você fosse feliz. E você provavelmente está. Mas eu queria que você fosse, não que estivesse. E eu desejo o mesmo para mim. Só que eu não consigo me desenrolar disso. Eu tento superar, eu acho que consigo, mas, quando percebo, voltei para esse mesmo ponto. O mesmo do dia da ponte.
A vida parece que parou ali; na minha cabeça, as luzes dos carros passando e o vento balançando as árvores, dizendo “isso que você está sentindo nunca vai passar, só vai piorar”, são infinitos. Eles só pausam quando eu chego no hospital e carrego o meu filho.
Como que as coisas chegaram até aqui mesmo? A minha mente fica nesse looping, buscando motivos para eu ter gostado tanto assim de você, para nos odiarmos agora e, ainda assim, eu não conseguir me sentir livre.
O problema não é ser mãe solteira. O problema é não conseguir seguir como “solteira”. Os meus amigos falam que eu posso ser uma mãe maravilhosa sem esquecer de mim, que eu deveria sair mais, que eu deveria arranjar alguém… No entanto, se eu não me esquecer, não consigo me dar um descanso dessas lembranças. O “eu” que restou daquela época ainda espera alguma coisa, e mesmo que eu saiba que nada virá, ela persiste em me segurar e me fazer assistir ao mesmo filme. O problema é que o filme acaba, e não adianta ficar repassando zilhões de vezes; o final continua o mesmo.
Às vezes, eu penso que poderia aparecer um cara legal, que gostasse do meu filho como se fosse um pai mesmo, e isso seria maravilhoso. Entretanto, quem da minha idade ia querer alguma coisa agora com uma garota que tem um filho? E, mesmo que aparecesse, quanto de mim conseguiria seguir em frente sem fechar os olhos e imaginar que é você ali?
Eu queria não sentir mais nada e, como você, encostar a cabeça no travesseiro, ignorar o mundo e conseguir dormir. E que houvesse quem estivesse comigo.
Eu tenho inveja de você por isso. Só eu continuei olhando pro mesmo céu. Só eu continuo visitando uma parte sua todos os dias. Só eu me preocupo com o que ele vai pensar de você e engulo o choro para falar alguma coisa boa sua para ele. Só eu imagino como você poderia estar lá. E só eu fico me perguntando quando que esse sentimento vai passar e quando eu vou me sentir bem para procurar outra pessoa.
O nosso filho deveria ter nascido hoje, e você deveria estar com a gente. No entanto, onde você está mesmo? Será que você recebeu a tal carta? Será que esse é o único jeito de fazer você ser um pouco mais “pai”? Será que isso vai continuar a vida inteira assim?
Estou pagando pelos meus erros, e você também deveria estar pagando pelos seus; mas as pessoas continuam falando com você, mesmo sabendo o que está acontecendo. Talvez, ninguém se importe de verdade com nada disso. Talvez, não haja mais espaço para as coisas que eu considero importantes e, quem sabe, nunca existiu um lugar para mim.
Sempre chego à conclusão de que dar um passo pra frente, naquele dia, teria sido o melhor para nós. Pelo menos, hoje, não importaria quem eu conheceria e você não teria nenhum vestígio de problemas.
Sabe, se você tivesse me dito para pular, eu pularia. Porque eu era burra por você a esse ponto. E aí está um dos seus erros.
Tomara que, um dia, você entenda o que fez e perceba que o seu maior erro foi perder uma parte da vida do seu filho. Eu não espero mais por milagres, só por consequências.
Hoje, enquanto esperava para ver o meu filho, veio um homem, com passos rápidos, em minha direção, tomou fôlego e me perguntou: “é pra cá que trazem os bebês depois do parto?”
Respondi com um aceno positivo com a cabeça e, em seguida, ele explicou:
- Assisti ao parto da minha esposa, só que não pude ver a minha filha direito porque, assim que ela nasceu, trouxeram-na para cá; parece que ela não estava respirando e eu queria saber se ela está bem.
Como ele estava nervoso, pedi para chamar alguém da UTI para ele e, enquanto esperávamos, tentei acalmá-lo.
Quando a enfermeira veio, ela explicou que a neném estava em procedimento e que a médica falaria com ele depois. Então, ele perguntou se ela sabia quanto tempo aquilo ia demorar e ela respondeu que seria algo em torno de uma hora.
Depois disso, entrei na UTI e passei em frente à sala em que estavam fazendo o procedimento (a sala de isolamento em que o meu filho está fica em frente); aparentemente, estavam entubando a criança.
Após quase uma hora, terminaram o procedimento e, alguns minutos depois, eu saí da UTI e fui para a recepção. O pai da bebê estava lá, carregando duas malinhas. Foi aí que eu me toquei: quando ele perguntou quanto tempo o procedimento ia demorar, ele queria saber quanto tempo ele tinha para buscar as coisas da filha, achando que ela fosse sair de lá logo.
Pode parecer bobo, mas eu achei aquilo uma das coisas mais lindas do mundo; era um pai desses que eu queria que o meu filho tivesse a sorte de ter.
O pai do meu filho não segurou a minha mão no parto, não viu o filho nascer, não sentiu essa angústia de não poder ver o bebê logo, não sofreu por não poder encostar nele por quase um mês e não ficou sem dormir por dias por ter um filho na UTI sendo entubado, precisando de transfusão, tendo parada, tomando anticonvulsivo e lutando contra uma infecção grave. E, em um dia, eu vi um pai sofrer pela filha o que eu teria dado a minha vida para o pai do meu filho sentir nesse pouco mais de um mês.
De novo, senti aquele gosto amargo com uma pontada de inveja; mas foi bom ver que pais assim, de verdade, existem mesmo, fora do meu mundo perfeito e das propagandas de margarina e seguro de vida.
Quem sabe, um dia, eu consiga ser, além de mãe, um pai tão bom assim para ele? Quem sabe, um dia, o meu filho não consiga um pai de verdade?
Estou tentando ser a melhor mãe e o melhor pai do mundo e arranjar alguém melhor que um banana não é das tarefas mais difíceis.
Enfim, seguem duas propagandas de seguro de vida que eu lembrei por causa disso tudo:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=RkoRDFjBh44
http://www.youtube.com/watch?v=3at64I7H9-c&feature=player_embedded
“Para fechar o PGE, preciso do texto com as dedicatórias de cada um”
Olhei essa frase por alguns minutos. Eu entendi o que eu tinha que fazer, mas fiquei pensando: “o que escrever?”.
Caramba, aconteceram tantas coisas desde que eu e três garotos resolvemos arriscar nosso TCC em um projeto empreendedor que muitos teriam achado impossível e desistido na hora… E, como se não bastasse a dificuldade do trabalho em si, ainda tive os meus problemas com o ex, a anemia, a depressão, a gravidez, as complicações do meu bebê… E esses três me aguentaram com tudo isso.
Eu só posso dizer que tive sorte; convivi por um ano com essas pessoas, e seria muito grata se o meu filho fosse que nem eles quando crescer. Foi pensando nisso que eu escrevi a minha dedicatória:
Eu sou péssima com despedidas. Quando decidi sair de casa, com 19 anos, esperei os meus pais dormirem, limpei a casa, arrumei as minhas coisas, deixei a minha cadelinha na minha cama e fui olhar os meus irmãos dormindo; não consegui dizer “tchau”, nem falar o quanto eles eram importantes para mim; só consegui segurar a vontade de chorar até sair pela porta, para não acordá-los.
A vontade que eu tenho agora é de fazer a mesma coisa: agradecer aos garotos pelo trabalho nesse último ano e segurar o choro até a hora em que eu sair pela catraca da ESPM depois de apresentar o PGE, para não ficar aquele chororô todo; oras, estou num grupo de nerds, a gente só chora se completar uma missão e a energia acabar antes de salvar o jogo. No entanto, seria muito injusto dizer só “obrigada, boa sorte e até um dia”.
Eu sei que, daqui pra frente, cada um vai seguir o seu caminho e, com certeza, serão os melhores onde estiverem. Eu sei que não nos veremos mais todas as semanas. E sei que não haverá mais hangouts ou conversas pelo grupo Instabeat do Facebook. Por isso, a minha dedicatória é, principalmente, uma despedida.
Boris, Dan, Leo, muito obrigada por aceitarem essa quest de fazer o PGE comigo, por terem sido a família que eu não tive por dois anos e por me ajudarem a terminar a faculdade durante a gravidez e os primeiros meses do meu filho. Eu não teria sobrevivido sem vocês.
Emmanuel, Daniel, Livia, obrigada por acreditarem na nossa ideia, pelas orientações, pela atenção e até por terem me excluído das conversas online para me poupar durante a minha recuperação e pela “bronca” por eu ter voltado ao trabalho antes da hora. Espero que este trabalho retribua pelo menos um terço do que vocês fizeram pelo nosso grupo.
Por fim, queria que esse trabalho fosse um agradecimento aos meus pais por terem voltado a me apoiar, um pedido de desculpas para os meus irmãos (Musashi, Misa e Massashi) pelo tempo em que fiquei sem vê-los e uma homenagem ao meu filho, Victor Yuzo, meu pequeno samurai que está lutando na UTI e que acompanhou todo esse processo de perto por sete meses e meio.
Muito obrigada a todos por terem transformado esse 2012-fim-de-mundo em algo tão especial. De verdade. E, agora sim, posso dizer: obrigada, boa sorte e até um dia.
- Myna.
Queria ter escrito algo melhor, mas não consegui. Realmente, sou péssima com despedidas.
Tomara que eles entendam pelo menos um pouco do quanto eles foram importantes pra mim.
Ontem, fui dormir bem porque, enfim, saí da rotina casa-hospital-facul: de última hora, saí com um amigo e fomos para um dos meus lugares favoritos; desabafei, ri e soube de algumas coisas que realmente me deixaram feliz.
Uma dessas notícias foi tão boa que cheguei até a sonhar com ela; foi um sonho bizarro, mas muito bom e engraçado. Por causa disso, apesar da estranha sensação causada pelas poucas horas de sono, acordei rindo. E, naquele momento, fiquei feliz, porque parecia que o meu inconsciente queria dizer que eu estava, enfim, livre de certas correntes.
No entanto, hoje, por acaso, escutei Canceriano sem Lar, do Raul Seixas. Por algum motivo, que só eu entendo (e nem tenho tanta certeza assim se entendo mesmo), percebi que, na verdade, ainda estou presa. E, assim, a música da noite levou o sorriso da manhã.
Eu sei o que é o melhor a se fazer, mas parece inevitável sentir essa coisa que me impede de seguir e que me faz pensar “e se…?”, mesmo sabendo que isso não significa nem muda nada pra ninguém.
É angustiante sentir esse misto de raiva com esperança, teimosia e orgulho; algo que não deveria, mas que parece aquilo que eu preferia não ter sentido.
Se eu tivesse três desejos, pediria um controle para os meus sentimentos, uma máquina do tempo e mais três desejos. Caso o último fosse vetado, pediria para que a música não tivesse me falado nada, daí só haveria o sonho e, pra mim, só existiria aquela verdade.
Mas, de novo, estou pensando sobre coisas impossíveis, e nada pode ser salvo. Com algum pesar, sinto que será sempre assim. E só pra mim.
Só não me sinto mais idiota porque, em algum momento, aquilo existiu, e foi uma verdade, pelo menos de mim. E só isso me salva.
“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata”
Ontem, meu filho completou um mês de vida e um mês no hospital. A sensação que eu tenho é bizarra, como se eu fosse duas: aquela que viu o filho e a que ficou esperando.
Para a primeira, tudo isso se reduz a umas 90 horas (neste caso, 30 dias = 3,75 dias); para a segunda, cada minuto parecia interminável (neste caso, 30 dias = ∞).
Ver que o meu filho cresceu e mudou tanto desde que nasceu me dá essa coisa bipolar: sinto orgulho e fico com um sorriso bobo na cara, mas bate a tristeza de ter perdido tantas horas em que eu não pude estar com ele.
Nesse um mês, ele foi entubado duas vezes, teve febre, infecções e paradas, ganhou duas cicatrizes no pescoço por causa da flebotomia, várias picadas de agulha, passou para a sala de isolamento da UTI, ficou um tempão com os olhos tampados por causa do banho de sol artificial, tirou acessos, sensores e CPAPs, tomou vários remédios, raspou o cabelo e ganhou um legítimo moicano punk (ou corte de Neymar, para alguns) e um acesso na cabeça.
Mas, continuando com a bipolaridade da coisa, ele aprendeu a respirar sozinho, começou a mamar, superou 90% dos problemas que teve e ficou mais lindinho e forte, mostrando que uma coisa perfeita pode ser ainda melhor; ele virou meu herói.
Em 30 dias, vi o que é o amor, a loucura, a dor e a inexistência do limite deles. E, de alguma forma, fiquei um pouco mais forte e aprendi a ter um pouco mais de orgulho próprio. Isso foi bom, mas prefiro não ter mais dessas lições e ter o meu filhote logo em casa.
Enfim, preciso voltar para o hospital.
Feliz Um Mês e Um Dia, filhão!

Meu filhote dizendo “okay, mamãe, chega de corujar!”
“Feliz Dia das Mães”
É esquisito escutar isso direcionado a mim, pela primeira vez; ainda mais vindo de pessoas que não são meus filhos nem marido nem namorado nem qualquer coisa assim. Mais estranho ainda é ganhar um presente (dvd da minha banda favorita, Mr. Big) por causa desse dia de uma pessoa que não tem porquê fazer isso (não que eu esteja querendo reclamar de boca cheia).
Deixando toda essa estranheza de lado, o meu Dia das Mães foi assim: ir para o hospital, voltar para casa para (tentar) almoçar, voltar para o hospital, voltar para casa para (tentar) jantar, ir para o hospital de novo e voltar para casa para (tentar) dormir.
Okay, não foi um dia lindo e maravilhoso, não ganhei um belo almoço ou jantar nem flores ou seja lá o que for que os outros costumam fazer nesse dia; por aqui, foi um dia chuvoso, cinza e frio e o meu humor estava do mesmo jeito. Uma parte, por passar o Dia das Mães lá, quando eu queria que eu e o meu filho estivéssemos em outro lugar; outra parte não ter o que fazer senão esperar o próximo horário autorizado para vê-lo e, com isso, tive tempo demais para pensar em besteiras, daquelas que baqueiam com força e tiram todo o sono, fome e o que mais for.
Na verdade, nem tenho tanta certeza assim se o meu péssimo humor se deve mesmo ao Dia das Mães; talvez isso só tenha sido a gota d’água. Até queria mesmo que o meu bebê tivesse saído de lá para me dar isso como presente, mas já sabia que as chances disso acontecer eram nulas.
O fato é que não tenho dormido direito, não tenho vontade de comer, só como porque é importante pro meu filho, ando estressada e fico triste com uma facilidade irritante. E nem por isso o mundo dá trégua.
Estou num ponto que às vezes me pego surtando, chorando pelos cantos e querendo voltar ou avançar no tempo, ver todo mundo e, ao mesmo tempo, não ver ninguém e sumir.
Eu sabia que ser mãe não ia ser fácil, mas não esperava que fosse passar por uma fase tão difícil assim tão cedo. Até agora, ser mãe tem sido algo mágico e horrível: tenho um filho maravilhoso que eu não posso ter comigo o tempo todo.
Enfim, só para contrabalancear o texto, segue uma foto do meu filhote lindo e maravilhoso, antes de rasparem o cabelo dele para colocarem o acesso na cabeça:

Momento mãe-coruja-e-eu-sei-disso: ele tem o sorriso mais lindo do mundo!
“Recém-nascido prematuro é assim mesmo, como uma montanha russa: altos e baixos, de uma hora para outra” - palavras do médico, como se ele tivesse adivinhado que eu estava entrando em colapso com mais uma dessas caídas no quadro do meu filho.
Nessa terça, tive a melhor notícia desde que o meu bebê nasceu: eu poderia, enfim, pegá-lo no colo e tentar amamentá-lo. Ouvir isso foi bom, mas pegá-lo pela primeira vez, depois de tantos dias, foi muito melhor.
Algumas semanas antes do meu parto, uma amiga me falou que o olhar de filho era algo mágico, que era possível enxergar nos olhos dele o amor sem maldade nem qualquer outra intenção que não simplesmente amor. Naquela hora, eu acreditei naquilo, mas só entendi realmente o que ela quis dizer quando aconteceu comigo.
Fiquei com medo dele não saber quem eu era, depois de tanto tempo dentro da incubadora, tendo as enfermeiras ao lado dele nas 23 horas do dia em que eu não podia ficar lá e sendo que só elas encostavam nele. No entanto, peguei-o no colo e ele abriu aqueles olhos e deu um sorriso para, em seguida, abrir a boca e procurar alguma coisa para sugar, como se ele não tivesse dúvidas de que eu era a mãe dele.
Mesmo que aquele momento tenha durado tão pouco, mesmo que pareça tão bobo, foi ali que eu senti essa coisa, que até agora eu não sei dizer o que é; só sei que é a melhor coisa que eu já senti. É realmente mágico e indescritível.
E, por causa dessa felicidade, acabei esquecendo de como as coisas são instáveis e baixei a minha guarda.
Na quinta, cheguei na primeira visita do dia e falaram que o meu filho estava em outra sala. A minha mãe ficou feliz e falou: “deve ter passado para a sala dos outros bebês que estão melhores, para ficar fora da incubadora”.
Entretanto, ele estava na sala de isolamento; ele havia piorado, os pontos da flebotomia (e os outros da flebo que não deu certo) estavam soltando secreções (a tal da infecção hospitalar), a infecção que ele já tinha, que deveria estar melhorando, continuou resistente e eu não pude pegá-lo por mais um dia.
Foi um inferno ficar dias e dias sem poder segurar o meu filho e sem saber quando isso aconteceria; mas, depois de pegá-lo pela primeira vez, ficar um dia sem encostar nele pareceu tão horrível quanto todos os 23 dias em que fiquei só olhando-o através de um vidro.
Enfim, hoje, sexta-feira, pude pegá-lo novamente. Entretanto, na última visita, ele perdeu outro acesso, estava com a saturação baixa e teriam que raspar o cabelo dele para fazerem uma punção, já que em bebês as veias da cabeça são maiores.
Esses dias, um amigo perguntou como que eu não pirei. Aí é que está o problema: eu pirei. Eu me desespero e surto a cada notícia ruim e, quando recebo uma notícia boa, fico com medo de ficar feliz e, quando fico, sinto culpa por aquilo não ter durado, como se eu respirar aliviada por um instante fosse uma brecha para as coisas piorarem.
Não sei mais o que fazer. Não sobrou muito mais para apelar. Já rezei, xinguei, desisti. Só sobrou esperar. E isso é uma droga.

Meu filho, mandando um “nem ligo” pra essa montanha-russa que me deixa desesperada. E, a cada dia que passa, ficando mais lindo. Okay, filho, pare de aprimorar a sua beleza e melhore logo a sua saúde!
Eu tinha prometido a um amigo que não escreveria mais enquanto meu filho não melhorasse de vez. Como ele estava indo bem, esse amigo me disse que ele acreditava nessa coisa de que há pessoas que poderiam invejar, desejar mal, como se fosse uma espécie de mau-olhado e que, por isso, era melhor dar um tempo nos meus textos.
Só que ele piorou de novo, e a única válvula de escape que eu tenho é escrever. E, sinceramente, não consigo pensar que alguém tenha inveja de mim nessas horas.
Hoje de manhã, na primeira visita do dia, eu e a minha mãe tivemos que sair um pouco mais cedo da UTI neonatal porque o cirurgião ia entrar para fazer a flebotomia no meu bebê.
Flebotomia é o procedimento no qual se faz uma incisão a fim de inserir um cateter na veia (coisa que eu não sabia e a minha mãe quem explicou, com detalhamento que eu deveria ter ignorado a fim de evitar sentir agonia por alguns meses).
Meu filho precisou disso porque ele tinha perdido o último acesso que conseguiram colocar nele, os braços e mãos dele já estavam todos picados de agulhas e não conseguiam pegar outra veia. Mais tarde, ele teve uma parada e, depois, precisou ser entubado.
Na última visita, à noite, lembrei de uma coisa: o tipo sanguíneo do meu filho não é o mesmo que o meu. Não sei o porquê de ter lembrado disso naquela hora, mas aquilo me deixou péssima. Todas as vezes que ele precisou de transfusão, tinha sangue do tipo dele no hospital, mas fiquei pensando: “ninguém de casa tem o mesmo tipo sanguíneo, e se um dia ele precisar e não tiver no hospital?”. E veio aquela súbita raiva.
Eu tô cansada de ser tão inútil pro meu filho. Não posso carregá-lo, não posso amamentá-lo, não posso dar banho nele, nem trocar suas fraldas e tampouco doar o meu sangue para ele. E, ainda por cima, não consegui nem fazer o ***** do pai do meu filho dar as caras e fazê-lo ficar por perto caso seja preciso. Quer dizer, caso o meu filho precise ainda mais dele.
Eu estou com tanta raiva e tão mal que eu tenho descontado isso nas poucas pessoas que estão por perto. Eu sei que isso é errado, estúpido e burro, só que eu não consigo mais falar que o meu filho está mal sem ser amarga.
Há pouco, meu irmão de 20 anos perguntou como estava o bebê e eu só disse para ele perguntar para a minha mãe, porque eu não sabia de mais nada direito; e eu sei que falei isso de forma grosseira, e fico mal por isso, só que eu não consigo mais me sustentar direito nisso. Não dá para continuar sorrindo e fingir que tá tudo bem e que eu estou otimista.
De tanto ver o quadro do meu filho melhorando, acreditar que ele sairia da UTI logo e, em seguida, saber que ele piorou, acabei aprendendo que é melhor tentar ser pessimista. É uma tentativa de me anestesiar para os próximos baques. Pelo menos, eu tento não me deixar levar por esperanças que os outros falam sem saber como dói quando aquilo não se concretiza, como “quem sabe até o Dia da Mães ele não estará com você” ou “espere só mais quinze dias que ele melhorará”. Acabei de chegar nesse ponto de desistir de acreditar.
Enquanto isso, tento ficar calma, inspirando bem fundo e segurando ao máximo cada respiração, falhando uma vez ou outra em segurar esse choro que embaça tudo.
Eu não quero mais escutar que “não importa quanto tempo ele fique lá, ele ficará bem” ou “acredite que logo ele estará com você”; não quero mais ficar vendo ele crescer dentro de uma ***** de incubadora a cada ***** de visita de meia hora.
Eu quero ter o meu filho crescendo do meu lado, todos os minutos do dia, daquele jeito que só depois de alguns dias eu vou perceber que ele cresceu um pouco mais, e não ver como ele cresceu, engordou ou emagreceu por ter ficado horas longe dele.
Eu quero só isso… é pedir demais…? Essa pergunta fica ecoando vez ou outra aqui na minha cabeça…
Hoje, meu filho teve uma taquicardia e, além disso, precisou de outra transfusão de sangue. Entretanto, a médica falou que ele parece estar melhorando.
Eu e a minha mãe conseguimos tocar nele hoje e vê-lo um pouquinho com os olhos abertos, apesar dele parecer cansadinho.
E a minha prima corrigiu o valor que eu tinha falado ontem, no texto anterior; não era R$6 mil, era R$14 mil. R$6 mil era só para testar a reação do bebê ao medicamento nos três primeiros dias, mas é necessário pelo menos 14 dias para obter algum resultado.
Não há muito mais o que dizer: está frio, meu filho é lindo (apesar de ainda ter carinha de joelho) e ainda vou ter que esperar mais dez dias para ver se ele está melhorando mesmo ou não.
Como o texto de hoje foi curto, para encher mais espaço, segue a única foto que eu tenho do meu bebê, tirada pela minha mãe, com o celular dela (lá não é permitido tirar fotos nem filmar, a menos que se consiga uma autorização, que dificilmente é concedida):
